Thursday, December 01, 2005

Plagiando-me com a devida autorização


Ao ler o texto do Paulo Varela Gomes sobre a loucura que ataca

Vá para dentro lá fora... e outras ideias soltas
"... era eu na América do Sul qual Bambi pimpante a correr aos pulos pelos mais “insignificantes” becos do Peru.

O porquê dessa loucura? Muitas vezes por serem becos bonitos ou diferentes, outras só pela vaidade de querer ser o primeiro estrangeiro a estar ali em jeito de astronauta que espeta a sua bandeira, outras ainda para sem vaidade querer ser o primeiro estrangeiro. Estar-se num local onde não chegam estrangeiros é pacífico. Ainda que olhado de cima a baixo por gente que, seja nova ou velha, é pequena, rosada1 e inocente. Inocente porque é gente que ainda não se habituou a ter por reflexo à aproximação de gente alta e pálida como eu, o habitual esticar de mão em pedido de uma propina. Foi nestes locais que me senti genuinamente mais bem vindo, bem vindo por simplesmente ter chegado ali, por não ter tido medo do desconhecido, por ter confiado.

Foi no caminho para um lugar com gente assim que, enquanto á beira da estrada procurava um furo no pneu da bicicleta, fui ajudado por um estranho que uma vez resolvido o inconveniente percalço da bicicleta se apresenta como sendo Jesus, se espanta com o meu tão cristão nome (José Pedro) e me acompanha por alguns quilómetros até chegar aos seus campos de arroz enquanto conversamos sobre o sentido da existência, o lugar e a universalidade de Deus, a maravilha que é a Criação (fácil de perceber para quem vive nas vizinhanças da Reserva de Manu2) e a importância do alargamento da estrada que liga Pilcopata a Paucartambo de forma a facilitar tanto a exportação das frutas e arroz como a importação a preços mais razoáveis de todos os outros bens. Despedi-me com um caloroso pakarimkama (até amanhã) e nunca mais o vi. Foi a minha primeira mentira em quechua,.

Foi também num lugar com gente assim que uma jovem senhora (cujo nome, para grande tristeza minha, me escapa) enquanto descascava lentamente uma enorme papaya com uma não menos enorme faca me perguntou se eu não tinha medo de morrer ali... sozinho e tão longe dos meus. Era este o medo que a impedira de continuar a estudar e a ajudara a tomar a decisão de por ali ficar a preparar deliciosos sumos de fruta. Outros que também estavam por ali, mas não eram dali, não tinham tido tal medo. Vítimas dessa falta de medo eram agora professores, de escola primária ou secundária, que todos os anos eram sujeitos à sorte ou azar ditados por concursos de colocação de professores...

Foi assim que (no meio deste contra relógio de sete semanas para chegar ao mais diferente, ao mais isolado e exótico) fui encontrando o semelhante. Foram muitos os semelhantes: os semelhantes gente após descascado o contexto (ainda que não possa deixar de me surpreender com a facilidade com que muitos expuseram a sua vida/humanidade); o semelhante fé, com semelhantes dúvidas (ainda que mais igrejas, credos e músicas); o semelhante sistema com a semelhante cunha e a semelhante chica espertice que desanima quem quer ser correcto no que faz; a semelhante preguiça; o semelhante mercado com semelhantes vendedoras; os semelhantes empréstimos para compra de casa as semelhantes dúvidas vocacionais pré-entrada na universidade (ou saída de um orfanato que só é casa até aos desasseis); a semelhante alegria com a filha prestes a nascer e o semelhante luto (ainda que mastigado com folhas de coca); os semelhantes fogões de lenha; a semelhante exagerada propaganda política (ainda que sempre na forma de murais); a semelhante falta de água (ainda que lá não fosse verão)... Alguns são semelhantes de hoje, outros são-no do tempo dos nossos avós. Conforme me fui balanceando entre uma e outra sensação, fui tentando perceber o que somos nós: país desenvolvido ou ainda demasiado semelhante a um país em vias de desenvolvimento? Talvez os dois. Mas lembrando-me de algumas reflexões em torno da opção preferencial pelos pobres (nomeadamente, que devemos olhar sempre o mundo a partir do lugar do pobre3) fui-me apercebendo que, ainda que não possamos deixar de procurar o nosso “desenvolvimento” e convergência com os mais ricos, o trajecto que já percorremos dá-nos uma enorme responsabilidade para com o outro mais pobre, porque afinal o rico já somos nós."

1 a cor rosada deve-se a um número especialmente alto de glóbulos vermelhos necessários para compensar a falta de oxigénio existente nos Andes

2 a floresta tropical com maior biodiversidade do mundo

3 palavras tantas vezes repetidas pelo Samelo


aconselho vivamente uma ida aqui ao lado para quem quiser ler melhores textos sobre estes e outros sítios, destas e outras gentes com estes ou outros corpos.

3 Comments:

At 9:38 AM, Blogger inês said...

não disseste que a imagem da capa e outras neste número são tuas! :)

 
At 1:40 PM, Blogger António Luís said...

Oh Zé Pedro!
Não sejas modesto.
Eu sou o 5º a visitar o teu blog.
E venho cá quase todos os dias e gosto do que e como escreves!

Abraço.
Tó Mané

 
At 11:01 AM, Blogger Lua dos Açores said...

Afinal parece q sou a 6ª
Obrigada pelo link dos estudantes Católicos...favoritei para visita atenta

 

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